terça-feira, 28 de junho de 2016

Amanhecerá...

Chegou, me cegou
A levei a um concerto
Para tentar consertar meu desconserto
Depois paramos para reparar o parado
Olhando olhares se olhando
Catando e cantando pelas ruas
A lua cheia acendeu a noite
E então seu beijo me ascendeu, transcendeu-me
De forma discreta, descrevendo as estrelas
Suas lindas explicações sobre o mundo fluíam
E meus ouvidos fruíam
Mas amanhecerá, amanhã será
Amanhã me deixará
Na manhã fria, sofria, Sofia.
                                                              (Felipe D. S.)

sábado, 18 de junho de 2016

Partiu

O ônibus partiu partindo meu coração
Nele entrou meu amor
Fazendo de nós uma canção
Não olhei para trás para não vê-la partir
Olhei para frente, tentando sumir
Andei no abismo, sozinho
Enxugando as lágrimas fumegantes
Que meu resto queimavam
Orando para que ninguém me visse em tal estado

Estava eu, ali, dilacerado
                                                     (Felipe D. S.)

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Esqueci de ti

Esqueci do teu batom roxo
Do teu cheiro doce
Dos sorrisos meigos
Do seu gosto
Do seu jeito desajeitado

Esqueci de quando falávamos juntos
De quando ríamos do nada
De como o nada era tudo
De como o tudo era tão pequeno

Esqueci da sua voz rouca dizendo "meu amor"
De como pegava na minha mão
De como isso afetava meu ser

Esqueci de quando foi se afastando
De quando foi se apagando
De quando eu fui amando
E você esfriando...

Esqueci que mesmo vendo tudo
Preferia não ver nada
E foi vendo o nada entre nós
Que esqueci de te dizer
"Nunca lembrarei de te esquecer"
                                                                (Felipe D. S.)

domingo, 12 de junho de 2016

Nossa gramática

Você, minha oração principal
Eu, sua subordinada
Perdido entre vírgulas que cercam
Fico deslocado
Mas me coloca na ativa
E sinto-me teu complemento

Explicativa, objetiva, subjetiva...
Nossa relação é consequência do destino
E causa de inquietação
Afinal, só se pode amar, se entregar-se
Quando vai acabar?  Quem sabe?
Mas até lá, vamos fazendo de cada ponto final
Um ponto de partida

Quando terminamos uma frase, fase
Começamos um novo período
Às vezes simples
Às vezes complexo

Incoerentes, incoesivos
Conflitantes, corrosivos

Juntos
Eu, preposição
Você, artigo
Formamos a crase, crasal
Fruto da nossa regência transcendental
                                                                             (Felipe D. S.)

terça-feira, 31 de maio de 2016

Vendi minha alma

Vendi minha alma a um demônio
Em troca do seu amor
Foi ousado, insano
Mas a solidão já me torturava
Mais do que o próprio inferno

Selamos nosso pacto com um beijo
Nos apaixonamos...
Nunca imaginaria um demônio amando
Nunca imaginaria eu sendo amado

Dez anos me parecia o bastante
Nos parecia, mas não o foi

Em suas chamas, me queimei
E em meus afetos, o inundei

Fui ceifado
Cumprindo minha parte do contrato
No entanto, ele largou seu cargo
Para continuar sendo queimado, comigo
Não só pelas chamas do submundo
Mas pelas chamas do nosso amor...
                                                                     (Felipe D. S.)

sábado, 28 de maio de 2016

Esquina escura

No vento frio da esquina escura, te encontrei
Me adentrei em tua oculta solidão
Mergulhei no abismo de uma ferida aberta
Tive medo de continuar e me perder
Tive medo de parar e não viver

Nesse sanatório, a loucura tomou conta
Insano, não pensei
Insano, amei
Insano, me despedacei

Perdido, andei sem rumo
Acreditando que iria me encontrar em você
Acreditando que iria curar essa ferida
Que iria fazer parte da sua vida

O vento esquentou, a esquina brilhou
O abismo inundou, a ferida fechou
A gente se amou...
                                                                    (Felipe D. S.)

terça-feira, 17 de maio de 2016

Beija a flor...

O Sol lá fora queima suas asas
Desnudas, banhadas em mar
Tudo tonto com o céu a girar
A luz ilumina o calor exalado
A flor desabrocha em pensamento
No dia molhado, barulhento

Tentou despir-se das pétalas
Mas já faziam parte dele
Sei que parece clichê
No entanto, o que é o Amor
Se não, um grande clichê?

Sonho acordado
Lúcido ocultado
Sentido aguçado
Coração acelerado

Foi assim
Que o beija-flor amou
Amou a flor que nunca desabrochou
Perdido entre o que era real e ilusão
                                                                   (Felipe D. S.)